——E nós, aonde vamos? NinoBellieny
Durante o período eleitoral, antes do primeiro turno, meu celular nunca esteve tão movimentado. Foram tantas mensagens que se tornou impossível ler todas.
Pela minha atividade como jornalista, âncora de podcast e mestre de cerimônias, é natural que eu receba muitas ligações, mantenha contato com muita gente e tenha muitos amigos. Faz parte da profissão. O que me chamou a atenção foi perceber que pessoas que nunca me viram pessoalmente, ou que haviam cruzado comigo uma única vez, passaram a escrever com frequência incomum.
No começo, algumas mensagens pareciam pessoais. Depois, ficava claro que eram apenas uma forma de chegar ao pedido de voto, às vezes para o próprio remetente, outras para algum candidato apoiado por amigos. A conversa, quando existia, servia apenas de caminho até a propaganda eleitoral.
A insistência era grande. Mesmo sem qualquer sinal de que eu havia visualizado o conteúdo, novas mensagens continuavam chegando. Foi uma maratona difícil de acompanhar: muitas eram praticamente iguais e vinham encaminhadas em sequência, sem preocupação em saber se o destinatário tinha interesse naquilo.
Veio o primeiro turno. Quem se elegeu, elegeu-se. Quem não conseguiu ficou pelo caminho. Na segunda-feira seguinte, com deputados estaduais, federais e senadores definidos, senti uma tranquilidade que há muito não experimentava.
O celular voltou a ser um instrumento de comunicação, não uma espécie de caixa de correspondência eleitoral. Ficaram os amigos.
Entre tantas pessoas que haviam me procurado durante a campanha, apenas duas ligaram para agradecer a atenção recebida, inclusive pelo espaço que lhes dei para serem entrevistadas. As demais, que antes pediam apoio e buscavam contato com insistência, simplesmente desapareceram.
O sossego, porém, durou pouco. Quatro dias depois, as mensagens retornaram, agora motivadas pela eleição presidencial. Pessoas que raramente me enviavam uma notícia, um bom-dia ou mesmo uma informação corriqueira passaram a compartilhar realizações atribuídas a seus candidatos e pedidos de voto.
Mandam, reenviam, insistem. E não perguntam nada.
Ninguém quis saber em quem voto, de quem gosto politicamente, quais são minhas convicções ou simplesmente como estou. A comunicação se resume ao material de campanha. Não há conversa nem troca. Falta até a curiosidade elementar de saber se o outro deseja receber aquilo.
Por educação, preferi não responder que nunca havia enviado propaganda eleitoral a ninguém e que gostaria de receber a mesma consideração. Não quero transformar uma irritação pessoal em desentendimento.
Decidi esperar a segunda-feira depois do segundo turno. Espero que o silêncio volte a ocupar o espaço deixado pela campanha e que permaneçam os contatos verdadeiros: aqueles que sabem pedir com educação, perguntam primeiro se está tudo bem e conversam antes de apresentar uma solicitação.
São pessoas que compreendem que uma relação não pode ser reduzida à utilidade que alguém representa durante uma eleição.
Não sei quantas recebem alguma coisa para encaminhar mensagens. Outras, certamente, fazem isso por paixão política, porque acreditam sinceramente em seus candidatos. São situações diferentes, mas o resultado pode ser o mesmo: o incômodo de ver uma relação profissional ou amistosa transformada em uma sequência de pedidos e conteúdos eleitorais.
Talvez falte a essas pessoas uma pergunta simples antes de apertar o botão de encaminhar: será que estou incomodando?
Será que alguém muda de opinião porque recebe, todos os dias, mensagens semelhantes de uma pessoa que sequer pergunta como está? Será que insistir é uma boa maneira de conquistar a confiança de alguém?
A política pode despertar paixões, mas não deveria suspender a consideração pelo outro. Defender um candidato é legítimo. Querer convencer alguém também.
O que merece reflexão é a maneira de fazer isso, sobretudo quando o contato deixa de ser uma conversa e passa a funcionar como uma corrente automática, repetida sem avaliar quem está do outro lado.
É difícil não pensar no que acontece com as relações humanas quando o interesse eleitoral se sobrepõe à convivência. Gente que antes parecia próxima se torna ausente assim que termina a votação. Gente que quase nunca procura saber de nós aparece diariamente quando precisa de alguma coisa.
Passada a eleição, o silêncio revela o que aquelas mensagens talvez já estivessem dizendo.
Essa situação me faz recordar uma novela dos anos 1970, da extinta TV Tupi, com Leila Diniz no elenco. O título ficou guardado na minha memória desde a infância: E nós, aonde vamos?
Passadas tantas décadas, a pergunta continua atual. Não apenas para a política, mas também para a maneira como escolhemos nos relacionar com as pessoas.
Afinal, se até uma mensagem de celular pode deixar de ser um gesto de aproximação e se tornar apenas um instrumento de interesse, vale a pena perguntar: e nós, aonde vamos?






Nenhum Comentário! Ser o primeiro.