——A ilusão da mudança: por que subestimar o risco do agressor é o caminho para a tragédia
O ciclo da violência doméstica se sustenta em um mecanismo perigoso: a crença de que o agressor pode mudar espontaneamente. Esse equívoco costuma se manifestar de duas formas distintas, ambas igualmente fatais. De um lado, temos a mulher que, após denunciar e obter uma medida protetiva, acaba cedendo ao perdão, iludida pela “fase da lua de mel”, na qual o parceiro promete transformação e demonstra remorso para retomar a relação. De outro, há a mulher que sequer chega a denunciar, ou que, tendo denunciado, retira a queixa por receio, vergonha ou consideração pela família. Ela se convence de que o ex-companheiro não é “tão mau assim”, que ele não seria capaz de algo extremo ou que o fim do relacionamento, por si só, foi suficiente para aplacar a agressividade dele.
Controle

A falha comum entre essas duas situações é a subestimação da natureza do controle. A violência doméstica não é apenas um descontrole momentâneo, mas uma estrutura de poder. Quando a vítima acredita na “mudança” do violador, seja ela a ex-namorada que volta para casa ou aquela que, por pena ou medo de conflitos familiares, acredita que “ele não vai fazer nada” , ela remove o único obstáculo que inibia o agressor. A ausência de uma medida protetiva ativa é interpretada pelo sujeito não como um gesto de paz, mas como uma fraqueza ou uma oportunidade.
Vulnerabilidade
O risco de feminicídio dispara justamente quando a mulher baixa a guarda. O homem ( também pode ser uma mulher) que não aceita o término percebe a hesitação ou a condescendência da vítima como uma brecha. Aquele período de aparente calmaria, interpretada como “ele ficou bonzinho”, é, muitas vezes, o tempo que o agressor utiliza para planejar uma vingança calculada. Seja ela a que reatou o laço ou a que decidiu “deixar para lá” por consideração aos parentes, o desfecho costuma ser o mesmo: a invasão do domicílio, onde a mulher se sente protegida, mas onde se torna mais vulnerável a agressões fatais, como o esfaqueamento.
Sobrevivência
É fundamental compreender que o histórico de abuso é um sinal permanente de perigo, e não um evento isolado. Negligenciar a denúncia ou retirar a proteção legal baseando-se em convenções sociais, medo de estigmas familiares ou na esperança de uma regeneração sem acompanhamento profissional é ignorar o padrão de comportamento do abusador. A segurança física deve sempre prevalecer sobre a preservação da imagem de quem ameaça ou sobre o desejo de evitar tensões familiares. A medida protetiva não é uma barreira de conflito, mas um limite vital que separa a sobrevivência da tragédia. Reconhecer que o agressor não mudou, independentemente da fachada de “homem bonzinho” que ele apresente, é a única forma de garantir a própria vida. E para quem pensa que ameaças não se cumprem, é bom acreditar que um dia, a casa cai.




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